O diretor da CCMQ, Diego Groisman, o diretor do MACRS, André Venzon, e a obra de Regina Silveira (Foto: Kevin Nicolai)

Obra da artista visual Regina Silveira recompõe patrimônio da Casa de Cultura Mario Quintana

Publicado em 28/08/2020

POR LUDWIG LARRÉ - CCMQ/ASCOM SEDAC


Painel será instalado no hall do Teatro Bruno Kiefer. O mesmo lugar exibiu, por anos, outra obra de Regina Silveira, descartada indevidamente, em 2016, durante uma reforma do espaço. A iniciativa repara o incidente e restitui o histórico do patrimônio simbólico e cultural público.

Na década de 1990, a artista visual Regina Silveira deu início a uma série de trabalhos a partir de imagens de diferentes auditórios. Em madeira, essas imagens foram remontadas e tratadas de modo a se obter a ilusão de tridimensionalidade. A artista conta que o painel “Auditorium”, perdido involuntariamente, em 2016, havia sido idealizado especificamente para o espaço que antecede a entrada do Teatro Bruno Kiefer. “Auditorium” fora adquirida na ocasião da inauguração da CCMQ, escolhida diretamente por Flávio Kiefer, um dos arquitetos responsáveis pelo projeto que transformou o prédio do Hotel Majestic em Casa de Cultura.

Em 2016, durante uma reforma do local onde a obra se encontrava, “Auditorium” foi removido da parede e guardado em um depósito para receber uma pequena restauração na estrutura de madeira. Os restos da reforma ficaram nesse mesmo depósito e a obra de arte, acidentalmente, acabou sendo removida junto com o entulho. O episódio, na época, gerou sindicância e processo administrativo que apontaram responsabilidades.

O historiador da arte Diego Groisman, que assumiu em junho deste ano a direção da CCMQ, tomou conhecimento do desaparecimento da obra alertado por André Venzon, diretor do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS). “Para a Casa de Cultura, ter uma obra da Regina Silveira é muito valioso. Não somente porque a artista é um grande nome da arte brasileira, mas por tudo que representa salvaguardar uma obra de sua autoria: um meio de reconhecer seu legado e prestar um tributo à sua trajetória artística”, afirma Groisman.

O diretor da CCMQ ressalta o compromisso da Secretaria de Estado da Cultura – encarado com muita seriedade pela secretária Beatriz Araújo – com a preservação e conservação do patrimônio material e imaterial do conjunto cultural do Estado. Dentro dessas diretrizes, a partir de uma interlocução prévia realizada pela também artista Elida Tessler, Diego contatou Regina Silveira. O diretor conta que, inicialmente, a ideia era tentar reconstruir digitalmente o mesmo trabalho perdido. “Após tratativas, concluímos que a substituição por outro trabalho da série, realizado na mesma época do anterior, pelo valor histórico que possui, seria a melhor maneira de restituir o patrimônio”, observa Diego Groisman.

Obra da mesma série vai substituir a peça perdida

A obra escolhida, um painel em recorte de madeira, tingida e pintada à mão, tem como ponto de partida o auditório Tasso Corrêa, localizado no Instituto de Artes da UFRGS, com projeto arquitetônico de Fernando Corona. “O registro fotográfico do auditório, feito pela própria artista no início dos 1990, foi o ponto de partida para a elaboração dos desenhos preparatórios, nos quais Silveira explora possíveis visualidades e distorções da imagem original, já planejando o futuro recorte. Esses desenhos e a fotografia original também foram doados à Casa de Cultura e serão expostos junto à obra”, explica Diego Groisman. Regina Silveira faz uma observação pela percepção de artista: “Toda a operação sequenciada nos desenhos preparatórios está dirigida a refazer, no próprio olho do observador, as características da fotografia que deu origem ao trabalho”, define a autora.

A obra “Auditório”, de Regina Silveira – um dos principais nomes da arte contemporânea brasileira – foi recebida no dia 21 de agosto. A instalação será finalizada em setembro, mês em que se celebram os 30 anos de funcionamento da Casa de Cultura Mario Quintana. “Foi uma feliz conjunção sintetizada nessa escolha. Ao mesmo tempo em que fazemos referência ao Instituto de Artes, que tem formado interessantes artistas e pesquisadores aqui em nossa cidade, incluindo-se neste rol a própria Regina Silveira, também homenageamos o legado de Tasso Corrêa, que esteve à frente do Instituto de Artes entre 1936 e 1958”, complementa Diego Groisman, que estudou a história do Instituto em sua dissertação de mestrado.

O resgate, que simboliza um grande acontecimento para a CCMQ, contou com o apoio da galeria Bolsa de Arte, que se responsabilizou pelo transporte apropriado da obra, desde São Paulo até Porto Alegre, e do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul, que disponibilizou a equipe técnica encarregada do laudo museológico e da supervisão na instalação do painel. “Espero que o episódio sirva de alerta para desenvolvimento e consolidação da consciência sobre a preservação do patrimônio público, e estimule que se confira o merecido reconhecimento a essas figuras que tanto fizeram pela nossa arte e cultura”, conclui o diretor da Casa de Cultura Mario Quintana.

A ARTISTA - Regina Silveira (1939) nasceu em Porto Alegre e vive em São Paulo. Ao longo de mais de cinco décadas, Silveira, uma figura crítica na arte conceitual brasileira, investigou a tensão entre movimento e perspectiva espacial, inserindo significado político em instalações que respondem a locais específicos. Reconhecida por suas explorações paródicas do espaço através de construções geométricas, a obra de Silveira é celebrada tanto pelo rigor conceitual quanto pelo impacto formal. Graduada pela UFRGS em 1959, nos anos 1960, iniciou uma formação artística sob a tutela do pintor expressionista Iberê Camargo. Também estudou xilogravura, com Francisco Stockinger, e litografia com Marcelo Grassmann.

Com Doutorado na ECA/USP (1984), onde lecionou a partir de 1974, tem extensa carreira docente. Desde os anos 1960, tem realizado inúmeras exposições individuais e participado de coletivas selecionadas nacionais e internacionais. Foi artista convidada da Trienal de Setouchi, Japão (2016), das bienais de Havana (1986,1998 e 2015), da Médiations Biennale Poznan, Polônia (2012), das Bienais do Mercosul (2001, 2011), da Bienal de Taipei (2006) e das bienais de São Paulo (1981,1983, 1998). Entre as premiações recentes, em 2013 recebeu o Prêmio MASP; em 2012, o Prêmio ABCA; em 2009, o Prêmio Fundação Bunge e, em 2007, o Prêmio Bravo Prime. Suas obras estão presentes em diversas coleções e museus, nacionais e internacionais. (Outras informações em reginasilveira.com)

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