Camila de Moraes celebra o caráter afirmativo e do I Festival Cinema Negro em Ação | Foto: Caroline Bicocchi

Festival Cinema Negro em Ação é a maior realização afirmativa do audiovisual gaúcho

Publicado em 19/11/2020


por Camila de Moraes - Cineasta 

Em estado de êxtase, convidamos todos para acompanhar e fazer parte da concretização de um sonho, a realização da primeira edição do Festival Cinema Negro em Ação. Agora em novembro, entre os dias 20 e 27, o Rio Grande do Sul vai receber todas as regiões brasileiras nesse território quilombista de expressão artística da cultura negra. Esse nosso RS de Oliveira Silveira, do Grupo Palmares, do 20 de novembro, de Maria Conceição Lopes Fontoura, da Maria Mulher. É nesse cenário de tantos profissionais negros e negras, com nome e sobrenome, de instituições importantes para construção do movimento social negro, que nós permanecemos seguindo os passos dos nossos ancestrais para dar continuidade nesse caminhar. É o RS em ação, é o Cinema Negro em Ação. 
E pensando que "nossos passos vêm de longe” e com base no ditado africano “é preciso saber de onde se vem para saber aonde se vai”, nessa primeira edição, nós prestaremos uma homenagem em vida; mais que uma homenagem, um profundo agradecimento a algumas pessoas que dedicam a sua vida à cultura brasileira. Pensando no eixo trajetória no audiovisual, a nossa homenagem vai ao ator gaúcho Sirmar Antunes. Ele representa aquilo que desejamos ser, a criatividade, a superação e o afeto. Faz da arte o seu ofício. Em 50 anos de carreira, já atuou em dezenas de peças teatrais, 18 longas e mais de 20 curtas-metragens. 
No eixo ação coletiva, raízes familiares, vamos homenagear a Família Menezzes, que sustenta os sonhos, as gerações que resistem e florescem. É a consolidação de um núcleo artístico e ativista sociocultural existente no país. À mãe Veralinda e ao seus filhos Sheron, Sol e Drayson a nossa homenagem, a essa família que representa muitas famílias. 
Agora no eixo contemporâneo filosófico, a nossa homenagem é para a escritora e filósofa Djamila Ribeiro, por nos ensinar a pensar novas narrativas sobre a contribuição histórica do indivíduo negro para a construção do Brasil e como aplicar conceitos como “Lugar de Fala” em nossas produções. Ensina-nos constantemente a importância de unir pensamentos e prática.  Então, pela existência dessas pessoas, e por nos fazerem continuar atuantes nesse cenário cultural, acreditando no poder da revolução por meio da arte, segue o nosso profundo e mais sincero agradecimento em forma de homenagem.  
O Festival também é feito de encontros, e o público vai poder acompanhar bate-papos incríveis com realizadores que estão há muito tempo “colocando a mão na massa” para produzir suas obras. E dessa necessidade de nos reconhecermos e ficarmos cada vez mais fortes, vamos “trocar figurinhas” com o coletivo de realizadores negros do audiovisual gaúcho, o Macumba Lab, que vem combatendo o racismo e apontando soluções para que todos possam estar inclusos nesse ambiente. Vamos também dialogar com a Família de Rua e profissionais atuantes no setor de videoclipes, fazendo novos elos e conexões. E isso só nos faz pensar que estamos produzindo em todas as frentes com um intelectual criativo imenso associado a uma excelência na qualidade técnica. 
É dessa “black excellence” que estamos falando, é das 309 inscrições que recebemos nessa primeira edição do Festival. É constatar que, antes mesmo de iniciar a troca com o público, esse evento já é considerado a maior ação afirmativa do audiovisual gaúcho e que, mesmo assim, estamos apresentando uma pequena parcela das produções existentes no cenário brasileiro, pois, nesse momento, o público terá acesso a apenas 75 produções, entre elas 33 curtas-metragens, seis longas-metragens, 19 videoclipes e 17 videoartes, que serão exibidos em 20 horas de programação da TVE-RS, canal 7.1 no sinal aberto, canal 7 na Net ou on-line no site da emissora. Também vai ser possível acompanhar as exibições pela fanpage da Casa de Cultura Mario Quintana e na plataforma #CulturaEmCasa
O Festival Cinema Negro em Ação nos permitiu fazer um pequeno mapeamento sobre o perfil dos realizadores da atualidade e sobre quem em cada categoria tem mais acesso para produzir. Compartilhando a nossa realidade, tivemos uma procura maior na categoria curtas-metragens, com 184 inscritos representando as seguintes localidades: AL, AM, BA, CE, DF, GO, MA, MG, MS, MT, PA, PB, PR, PE, PI, RJ, RN, RS, SP, SE, TO, Portugal e Cabo Verde. As produções, algumas coletivas, levam a assinatura de 77 diretoras e 127 diretores. Na categoria de videoclipe, tivemos 43 produções inscritas, assinadas por 20 diretoras e 30 diretores de estados como BA, CE, DF, MA, PR, PE, RJ, RS e SP. Na categoria videoarte, 38 foram os nossos concorrentes dos estados da BA, GO, MG, PR, PE, RJ, RS e SP, além de Portugal, sendo 21 diretoras e 22 diretores. Na categoria longa-metragem, as 15 obras concorrentes reúnem direção de duas mulheres e 15 homens. Os inscritos foram da Bahia, Espírito Santo, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo.
Esse micropanorama nos impulsiona a caminhar para frente e faz avaliar que temos um longo trajeto a percorrer, mas que ele não pode ser lento, para que haja mudanças significativas para a permanência de realizadores negras e negros dentro do audiovisual. Lutamos para que, dia após dia, possamos encontrar mais mulheres em todas as frentes da cadeia cinematográfica. Que possamos produzir longas-metragens, curtas-metragens, videoclipes e videoartes de forma digna e com recursos financeiros suficientes, com os quais possamos pagar os nossos profissionais e todo o processo criativo, além de pensarmos em maneiras e soluções para distribuição dos nossos conteúdos. 
Por fim, essa edição do Festival Cinema Negro em Ação brota como uma esperança em nossos corações, como uma estatística de que o audiovisual brasileiro também é composto por realizadores negras e negros. E, do RS para o mundo, o nosso sonho se concretiza, porque um coletivo se organiza para que isso aconteça, movimenta rios, mares e balança a estrutura para construir de forma sólida a nossa permanência e existência no cenário cinematográfico do país e do mundo. A Oliveira Silveira e Maria Conceição Lopes Fontoura, meu muito obrigada por abrirem os nossos caminhos. Agora é chegada a hora de nos reconhecermos nas telas. Uma boa sessão a todos!

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